
A venda de cimento na Argentina cai quase 47% em relação ao mesmo mês do ano anterior e a indústria da construção civil acumula quedas, consecutivas, há 23 meses, forçando as empresas do setor deixarem de arcar, até mesmo, com o pagamentos de salários.
Em março, mês da chegada da pandemia da covid-19, as vendas caíram 46,5% e ficaram em um dos níveis mais baixos dos últimos 14 anos.
Foram comercializadas apenas 502.541 toneladas do produto no mês, um resultado preocupante para o segmento e para indústria da construção civil do país vizinho.
As empresas que compõem a AFCP (ASSOCIAÇÃO DOS FABRICANTES DE CIMENTO PORTLAND), Loma Negra da brasileira Intercement (Camargo Corrêa), a LafargeHolcim, a Cementos Avellaneda, onde a brasileira VOTORANTIM tem uma boa participação de 49% e a PCR, empresa argentina que produz o cimento COMODORO, possuem juntas uma capacidade instalada de 15,3 milhões de toneladas por ano, distribuídas em 11 plantas integradas e mais 5 moagens espalhadas pelo país. As vendas de março representaram, apenas, 39,5% da capacidade mensal de produção, considerando uma divisão simples da capacidade instalada anual por 12, calcula-se uma capacidade mensal de 1,27 milhão de toneladas ou seja, a ociosidade do segmento no mês ultrapassou os 60%.
Analisando o primeiro trimestre, as vendas acumuladas somaram 1,9 milhão de toneladas, o que representou uma queda de 30% em relação ao mesmo período de 2019. Se considerarmos a capacidade produtiva do trimestre, no acumulado ano, a ociosidade do setor cimenteiro argentino chega aos 50%. Os resultados de março foram agravados pela pandemia e seus impactos deverão ser sentidos, mais fortemente, nos meses vindouros. A associação dos fabricantes estima uma nova queda de 20,5%, para o ano em curso, derrubando as vendas e empurrando o consumo do cimento para no máximo 8,8 milhões de toneladas/ano.
Somente a título de comparação sobre os volumes consumidos na Argentina x Brasil, o que se espera consumir em todo o ano de 2020 na Argentina, o brasil já consumiu somente no primeiro bimestre deste péssimo ano 2020.
Segundo os levantamentos estatísticas divulgados pela AFCP, o colapso nas vendas reflete a queda na demanda privada e pública por habitações, estradas, obras públicas e de infraestrutura em todo o país, crise potencializada após a desvalorização do peso, em agosto do ano passado e após as eleições primárias que agravaram ainda mais a recessão iniciada em 2018.
No que diz respeito à assistência financeira disponibilizada pelo novo governo, a Câmara da Construção diz que as linhas de financiamento não chegam com a necessária clareza e, em especial junto ao setor da construção civil e isso dificulta até o pagamento dos salários, quiçá a sonhada retomada da atividade.
Fontes da câmara apontam que estão em diálogo permanente com o governo e até enviaram uma proposta conjunta sobre as medidas da COVID-19, que aparenta ser o golpe de misericórdia ao já cambaleante setor da construção civil, com fortes reflexos no mercado cimenteiro.
Milton Cintra
CEO – Cimento.Org
O Mundo do Cimento