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Sebastião Camargo – Cimento Cauê/InterCement

camargoO rei dos empreiteiros conheceu todos os presidentes da segunda metade do século e cresceu à sombra do governo, mas soube se adaptar melhor que os rivais quando a fonte secou.

Numa rara entrevista que deu no início da década passada, o empreiteiro Sebastião Camargo contou como foi a primeira vez em que viu as pirâmides do Egito. Jovem e cheio de energia, ele escalou todas e admirou-as como qualquer turista, mas a conclusão que tirou foi surpreendente. “Acho uma obra monumental, como todo mundo acha, mas o que eu faço é mais útil”, disse.

Camargo foi o maior dos empreiteiros que cresceram à sombra do Estado brasileiro nas últimas décadas. Ele fez estradas, túneis, pontes, barragens. Usinas hidrelétricas, foram 18. A Ponte Rio-Niterói é obra sua. Os túneis sob o Rio Pinheiros, em São Paulo, também. Sua construtora, a Camargo Corrêa, participou da construção de Itaipu, do gasoduto Brasil-Bolívia, do metrô de São Paulo e da usina nuclear Angra I.

Filho de agricultores que saiu da escola depois do terceiro ano primário, Camargo começou transportando terra numa carroça puxada por burros em Jaú, no interior paulista. Abriu a empresa em 1939, comprou o primeiro trator um ano depois e começou a crescer com a construção de Brasília, quando se aproximou do presidente Juscelino Kubitschek e fez boa parte das estradas ao redor da nova capital. Camargo foi amigo de todos os presidentes brasileiros da segunda metade do século, e deu dinheiro para a campanha eleitoral de todos os políticos que o ajudaram nos negócios. Tinha visão estratégica. Nos últimos anos de sua vida, a crise do Estado fez definhar a generosa fonte de recursos que alimentou o crescimento das grandes empreiteiras, mas a Camargo Corrêa adaptou-se melhor aos novos tempos do que a concorrência. Investiu em novos negócios, mergulhou de cabeça nas privatizações e hoje administra várias concessões de estradas e energia elétrica.

Sebastião Camargo, o fundador da construtora Camargo Corrêa, viveu umbilicalmente ligado à terra e preservou os costumes sertanejos. Sempre com um cachimbo na boca, reservava os fins de semana para se atirar no mato. Não era raro ele se aventurar em caçadas no Mato Grosso. Podia-se medir a paixão observando a coleção particular de animais empalhados na fazenda em Jaú (SP), cidade em que nasceu a 25 de setembro de 1909. Pelo menos uma vez por ano embrenhava-se em alguma selva africana. Tudo mudou radicalmente em 1988, quando o caçador quase virou caça. Ao deparar com um leão, ele mirou a fera e errou o alvo. O felino correu em direção ao empresário e, não fosse a providencial ajuda do guia, que liquidou o animal faminto com um tiro certeiro, a diversão teria terminado em tragédia. “Ele dedicou-se ainda à criação de javalis, patos, gado e cavalos”, disse a ISTOÉ o amigo e ex-funcionário João Mattos.

Sebastião Ferraz de Camargo Penteado era filho de agricultores e estudou só até o terceiro ano primário. Aos 17 anos, aprendeu a transportar terra retirada de construções usando uma carroça puxada por um burro. Tomou gosto pelo negócio e, em 1939, comprou duas carroças. Com a pá em punho e as rédeas nas mãos, Camargo ajudou a construir as estradas que se multiplicavam pelo interior de São Paulo na época.

Logo aprendeu a técnica da terraplenagem e se transformou num modesto empreiteiro. Quando conheceu o advogado Sylvio Corrêa, ainda em 1939, abriu com ele uma pequena construtora, a Camargo Corrêa & Cia Ltda. Engenheiros e Construtores, com um capital de 200 contos de réis. Como eles nada entendiam de engenharia, a palavra “engenheiros” foi usada para salientar que os empreendedores estavam dispostos a qualquer empreitada. E trabalho não faltava. Em 1940, Camargo adquiriu um trator, o que significou grande vantagem tecnológica em relação à concorrência. Os contratos se avolumaram. O astuto “Bastião”, como era chamado pelos mais íntimos, ou “China”, para a maioria, devido aos traços orientais de seus olhos, não admitia homem barbudo, cabeludo ou desquitado na firma. Certa vez, um engenheiro que não fizera a barba, sem saber da implicância do seu Bastião, candidatou-se a uma vaga na construtora e foi reprovado. Inconformado, procurou um psicólogo para entender a importância da barba num processo de seleção. Em Jaú, Camargo fundou a tecelagem Companhia Jauense Industrial porque queria proporcionar trabalho a seus conterrâneos. Conseguiu mais do que isso – transformou a empresa numa grande produtora de tecidos.

Nos anos 50, a construção de Brasília era o sonho maior do empreiteiro. Ao participar da licitação, ouviu de um assessor do presidente Juscelino Kubitschek que a Camargo Corrêa não tinha máquinas em número suficiente para encarar as obras da nova capital. “Pois então me dê três dias e eu provo que o senhor está enganado”, respondeu, contrariado. Quando o prazo expirou, o empresário desfilou pelo cerrado com mais de 100 tratores vindos de seus canteiros de São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás. Resultado: coube à Camargo Corrêa a abertura de várias estradas que possibilitaram o acesso à capital federal. Em 1960, JK sugeriu que Camargo construísse um moinho de trigo para abastecer Brasília. Preocupado com o rigor técnico que a tarefa exigia, ele tratou de “importar” um especialista em moinho da Suíça para garantir a qualidade do serviço. Batizou-o de Moinho de Trigo Jauense. Em 1962, quando a empreiteira construiu a hidrelétrica Usina de Jupiá, no rio Paraná, uma das maiores do Brasil, concluída em 1968, a imponência da obra obrigou que uma cidade fosse construída ao seu redor para alojar os 12 mil funcionários.

Nos anos 70, a construtora entrou na licitação para as obras da ponte Rio-Niterói e tirou o segundo lugar. Até parece que rogou uma praga. Morte de pedreiros e desmoronamentos em meio à construção da ponte obrigaram o presidente Emílio Garrastazu Médici a pedir ao audacioso empreiteiro que assumisse a obra. “Pois não, senhor presidente, mas vou fazer do meu jeito. Vou começar derrubando tudo e partir do zero”, respondeu Camargo.
Em 1974, inaugura sua primeira fábrica de cimento em Apial com capacidade de 0,8 milhões de toneladas, tendo ampliado a capacidade daquela planta em 1991 para 1,3 milhões de toneladas. Dois anos depois entra no mercado do Mato Grosso, com a inauguração da fábrica de Bodoquenha. Em 1997 com a  aquisição da marca Cauê, marca presença no concorrido mercado mineiro. No ano de 2000 a então Camargo Corrêa Cimentos começa seu processo de internacionalização, entrando no mercado paraguaio com  a Yguazu e em 2005, com a aquisição da Loma Negra, passa a ser um dos maiores player’s na Argentina. Continuou crescendo no mercado cimenteiro e de concreto usinado e em 2008 adquiriu a moagem do cimento Brasil no porto de Suape em Pernambuco, estreando no mercado nordestino. Em 2010 chegando em Angola, quando criou a holding cimenteira do grupo, reforçando sua internacionalização, passou a se chamar INTERCEMENT e adquiriu 33% do grupo CIMPOR, quando em 2012, numa jogada de mestre, o grupo adquiriu 100% das ações da CIMPOR, tornando-se um dos grandes produtores de cimento do mundo.

Bilionários

A empresa foi responsável por mais de mil obras (incluindo as rodovias Imigrantes e Bandeirantes, o gasoduto Brasil-Bolívia, além da usina nuclear de Angra I e as hidrelétricas de Ilha Solteira, Itaipu e Tucuruí). A partir dos anos 90, Camargo passou a fazer parte da lista de bilionários da revista Forbes e sua fortuna pessoal foi avaliada em US$ 1,3 bilhão. Era casado e tinha três filhas e 11 netos. O controle da holding Morro Vermelho, que abrangia 34 empresas dos mais variados setores, incluindo agricultura, siderurgia, têxtil, alumínio e transporte, passou para os genros logo após sua morte por insuficiência respiratória, a 26 de agosto de 1994. Em 2012, a viuva de Sebastião Camargo, Dona Dirce Camarg, segundo a FORBES, com uma fortuna pessoal estimada de 13,1 bilhões, passou a ser a 59ª pessoa mais rica do mundo e a maior fortuna pessoal do Brasil.

VOCÊ SABIA?
Na construção de Itaipu, quase provocou um atrito diplomático. A Camargo Corrêa não havia sido aceita para a obra do lado brasileiro. O ditador paraguaio Alfredo Stroessner, amigo de pescaria do construtor, protestou: “Onde está Don Sebastián?” Ameaçou melar o negócio, obrigando o governo brasileiro a contratar a Camargo Corrêa.

Matérias publicadas em: Dinheiro On-line (http://www.terra.com.br/dinheironaweb/122/sebastiao_camargo.htm) e na ISTOÉ especial , O Brasileiro do século (http://www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/empreendedor/emp7.htm).

Postado em:
25 maio 2010 às 12:33hs
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